Tu consegues tudo!



O G. tinha 6 anos quando escalou em rocha pela primeira vez. Já tinha tentado, noutras vezes, em paredes artificiais, mas tinha muita curiosidade em experimentar a escalada mais a sério.

Estávamos na Serra da Freita e ele estava tão nervoso como entusiasmado. De arnês posto, e com o pai a dar segurança cá em baixo, o G. começou a subir. No início, era a excitação. Mas cedo começaram a surgir as primeiras dificuldades. Escolher onde colocar os pés, onde agarrar a rocha, sem presas evidentes como na parede artificial. Pé ali, mão acolá, foi subindo, subindo e ficando cada vez mais nervoso. A altura da parede já intimidava. Não posso precisar, mas teria à volta de 10, 15 metros de altura. Para o tamanho de uma criança de 6 anos, é obra. Tremia de esforço e de medo mas não queria desistir. De cá de baixo, soavam as vozes de incentivo: "vai, G.. Tu és capaz. Tu consegues." E ele lá ia subindo, pés na rocha, mãos firmes e foco no objectivo. Chegou ao topo visivelmente feliz! Orgulhoso por ter conseguido.

Faltava agora a segunda etapa. Descer. Ele sabia que só tinha que se afastar da rocha, em posição de rappel, tirar as mãos da corda e esperar que o pai o descesse. Mas algo correu mal e ele entalou o dedo mindinho na corda. Não disse nada, apesar de ter o dedo a latejar de dor. Desceu, sem medos, e só desabou quando os pés tocaram de novo no chão. Foi um reboliço de emoções difícil de gerir. Só os abraços que o envolveram e os olhares cheios de amor e admiração que se seguiram lhe reconfortaram a dor e abriram novamente o sorriso. Foi um dia bom.

Até hoje, a fotografia desse momento, esta mesma que ilustra o texto, está na parede do seu quarto, junto à cama. É para lá que ele olha quando lhe surge alguma dificuldade. Ela é a concretização daquilo que lhe dizemos desde sempre: "Tu consegues tudo!"

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