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Quando a escola transforma angústia em felicidade



Num modelo de ensino em que a liberdade e a autonomia, a individualidade e o respeito pela diferença lideram o processo educativo, a adaptação é exigente. Quer para os miúdos, quer para os pais.

Para os miúdos, normalmente habituados a ter um papel mais passivo na escola, onde diariamente lhes dizem o que devem aprender e lhes mostram a forma como devem fazê-lo, não é fácil lidar com a autonomia na aprendizagem e com a responsabilidade que isso acarreta. Tomar decisões, lidar com as consequências, ser o motor de si mesmo e assumir o desafio da aprendizagem ativa são competências que demoram a adquirir.

Para os pais, habituados a pensar que podem controlar o que os miúdos aprendem pelos sumários, TPC, testes ou manuais, é, por vezes, uma sensação de desnorte, de fé cega num modelo em que os resultados só são visíveis a médio, longo prazo.

No fundo, para todos os agentes do processo educativo (professores incluídos), é preciso romper com os preconceitos e desconstruir aquilo que, aos olhos mais conservadores da sociedade, é a única via possível.



No final do primeiro ano a aprender segundo a metodologia de projeto, olho para o G. e vejo um miúdo que se respeita cada vez mais. Que se aceita e valoriza a diferença que pode fazer no mundo. Um miúdo que identifica as suas dificuldades e procura soluções criativas para as ultrapassar. Que reconhece o seu valor e procura potencia-lo. Um miúdo cada vez mais atento aos outros, cada vez mais empático e mais disponível para enfrentar as dificuldades do trabalho em equipa (coisas que não são fáceis para a personalidade dele).

Ao longo deste ano, ele não teve TPC, nem testes. Não estudou ao fim da tarde ou ao fim de semana. Teve tempo para brincar, para praticar desporto e para ler. Teve tempo para criar, para escrever por sua livre vontade, para viajar e, mais importante do que tudo isso, teve tempo para não fazer nada. Teve tempo para ser criança!


Ao mesmo tempo, fartou-se de trabalhar. Pensou sobre assuntos “de adultos” e argumentou com consciência. Planeou e falhou. Aprendeu com os erros. Delineou estratégias e abrandou quando a cabeça pediu descanso. Acelerou quando percebeu que era preciso. Sentiu-se a crescer e aprendeu a conhecer-se melhor. Abandonou o discurso de comparação com os outros e fala principalmente sobre a sua própria evolução. Termina o ano feliz, motivado e empenhado.

Certamente que este modelo que escolhemos não agrada a todos. E está tudo bem. Cada um tem a sua natureza e o seu tempo. Mas é o modelo em que acreditamos e o que faz mais sentido para a nossa família.



Conto-vos isto com o coração apertado porque sei que o que vivemos hoje é um privilégio que não está ao alcance de todos. Conto-vos isto com o coração apertado porque o percurso que nos levou até aqui foi exigente e muito duro. Houve muitos dias de angústia e de frustração. Houve muitos dias de incompreensão. Houve muita tensão e muito cansaço. E o pior é que isto não é um problema nosso, apenas. Todos os dias me deparo com as mesmas queixas e as mesmas angústias vindas de famílias diferentes.

Como dizia há uns tempos um grande amigo, falando sobre as horas consumidas pela filha, diariamente, com os TPC: “Se a escola pode ocupar o tempo da família, então a família devia poder ocupar o tempo da escola. Qualquer dia, levo uns jogos e vou brincar com ela para a escola durante o tempo das aulas”.

Em nenhuma altura ponho em causa a classe dos Professores ou até mesmo o empenho das escolas que, muitas vezes, tentam fazer o melhor que podem com aquilo que têm. O que me impressiona são os efeitos de um método ultrapassado, que não tem em consideração o grau de desenvolvimento das crianças e privilegia a memorização em detrimento do pensamento crítico. Impressiona-me o foco excessivo nas notas como fator de diferenciação da qualidade dos alunos. Impressiona-me a repetição excessiva e inconsequente das matérias feita sem contexto e sem explicação. E, acima de tudo, impressiona-me a consequência que tudo isto tem nas crianças e nos jovens que duvidam das suas capacidades e valor porque estão inseridos num sistema cego, surdo e, infelizmente, pouco mudo.


No nosso caso, não descansámos enquanto não trouxemos a paz de volta aos nossos dias. Mudámos de vida porque não nos conformámos com a suposta inevitabilidade do ensino. Hoje, estamos em condições de afirmar que é possível fazer mais e melhor. É possível crescer e aprender sem duplicar o trabalho feito na escola. É possível e desejável que família ocupe um lugar de destaque no crescimento das crianças. As famílias precisam de tempo, de conexão, de harmonia. Precisam de conversar e brincar em conjunto. Mas nada disso é possível se a escola e o trabalho entrarem constantemente pela nossa vida adentro. A sociedade precisa de evoluir. E a família precisa de reclamar o seu tempo junto das escolas e dos locais de trabalho.