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O Quirguistão que nos encheu o coração



Desde que começámos a planear a viagem para o Quirguistão, decidimos que queríamos passar algumas noites com as famílias nómadas que vivem nas montanhas. Não queríamos nada turístico, fabricado para estrangeiro ver. Gostávamos mesmo era de passar algum tempo com comunidades reais, perceber como é o seu dia-a-dia e mostrar aos miúdos realidades diferentes daquela a que estão habituados.


Tivemos a sorte de encontrar uma família com duas yurts montadas a quase 3.000 m de altitude que se ofereceu para nos dar guarida por umas noites. Contratámos um guia para facilitar a comunicação (ninguém falava inglês e nenhum de nós fala quirguiz), um motorista para nos levar até lá e fizemo-nos à estrada rumo às montanhas Tien Shan.


Foram umas valentes 3 horas a percorrer caminhos sinuosos de montanha. Muita pedra, lama, piso inclinado, pontes improvisadas que não passavam de tábuas assentes nas pedras dos riachos. Atascámos o jipe. Desatascámos o jipe. Passámos por ovelhas, muitas ovelhas. Vacas, muitas vacas. Ficámos retidos no caminho enquanto elas passavam. E cavalos, muitos cavalos. A paisagem era absolutamente avassaladora.



Montanhas gigantes, cobertas de neve no topo. Rios límpidos e de corrente forte, margens verdes e húmidas. E quanto mais o jipe subia, mas os nossos olhos se abriam de contemplação e admiração. A M. adormeceu, cansada. O G. ficou colado ao vidro, a absorver tudo. Ela tinha 2 anos e meio. Ele tinha acabado de fazer 7.


Que aventura! E ainda nem tinha começado.



Tien Shan - De braços abertos e olhos curiosos



Chegámos a um planalto imenso e a família veio receber-nos. À nossa volta só via crianças a correr. Riam, brincavam, olhavam curiosas para aquelas caras estranhas que não estavam acostumadas a ver. Dois cães grandes e simpáticos aproximaram-se para nos cheirar. Vínhamos em paz e eles perceberam.


Sorrisos para cá e para lá, palavras que nenhum de nós conseguia perceber. E os miúdos sempre a correr. Os nossos estavam deliciados com aquilo tudo. Mostraram-nos a yurt onde iríamos dormir. Enquanto lá ficássemos, a família dormiria toda junta numa das yurts e nós ficaríamos na outra com o nosso guia, o Ulukbek, e o motorista. Não havia casa de banho em lado nenhum. Nem sequer rochas grandes onde pudéssemos esconder-nos quando precisássemos de privacidade. Havíamos de arranjar uma solução.


Pousamos os sacos de viagem e entrei para mudar a fralda à M. O G. ficou na rua com o Pedro e o Francisco (o nosso sobrinho de 15 anos que nos acompanhou nesta aventura). Estava imenso frio. O céu estava limpo, mas a altitude fazia a temperatura baixar bastante. Mudei a fralda, acrescentei uma camada de roupa à M. e saí.



Olhei em frente e vi o G. montado num burro, acompanhado de uma das crianças da família. Ao menino cabia a tarefa de reunir as ovelhas da família e ele tinha convidado o G. para o acompanhar. O meu filho, que nunca tinha andado de burro ou de cavalo, estava ali, à minha frente, com a tranquilidade de quem fez aquilo a vida toda. Mais tarde viria a ter mesma surpresa com o Francisco que, acedendo ao convite de montar um dos cavalos da família, disparou a galope pelo planalto. Vocês não sabem, mas o Francisco cria uma ligação com os animais que vai para além da compreensão humana. Ele e aquele cavalo eram um só. Naquele momento emocionei-me. As lágrimas corriam-me pela cara abaixo num misto de felicidade, orgulho e, pronto, confesso, medo que ele caísse do cavalo e se magoasse a sério. Para ele era também uma estreia e eu não me perdoaria se ele se magoasse numa viagem em que estava ao meu cuidado.



[como foi viver com os nómadas? o que comeram os miúdos? como dormiram? como se lida com a falta de casas de banho na montanha? conto-vos tudo nos próximos posts...]