À terra onde fores ter, farás como vires fazer



Enquanto estivemos com as famílias nómadas nas montanhas Tien Shan, fizemos todas as refeições com eles. Comemos os que eles comeram. Bebemos o que eles beberam. Comportamo-nos como eles se comportaram. Não havia alternativa (para além dos nossos reforços enlatados).


Naquele dia, o G. estava muito curioso com a forma como se cozinhava nas yurts. E, mal entrámos, foi logo espreitar para o fogão. Com a ajuda do Ulukbek, o nosso guia, descobriu que o fogão era alimentado a bosta de animais e que, para além de servir para cozinhar, servia também para aquecer a yurt.



Sentamo-nos no chão, à volta da mesa, e serviram-nos uma espécie de pão, maravilhoso, com compota caseira de comer e chorar por mais. Uma das mulheres sentou-se à mesa e começou a cortar maçãs para distribuir por todos nós. Ao fundo, uma tina de madeira cheia de uma bebida que as mulheres, à vez, iam remexendo com uma colher de pau gigante. Cheirava tão mal! Soubemos depois que era leite de égua fermentado. "Kumis", para ser mais precisa. Deram-nos a provar, orgulhosos. Aceitamos, agradecidos. Tentámos beber para não ofender, mas não conseguimos fazê-lo passar para além do toque superficial dos lábios. Ou melhor, nenhum de nós, para além do Pedro, conseguiu. O Pedro tem uma incrível capacidade de aceitar sabores diferentes. Mas aquilo sabia tão mal! Eles beberam tigelas inteiras e ainda encheram garrafões para enviarem pelo nosso motorista para a família que estava na cidade. Ali, era uma iguaria. Ao que parece, para o Pedro também.


Assim que o jantar foi servido, o G. atirou-se ao prato que lhe puseram à frente. Era uma espécie de caldo, com legumes e massa. De repente, parou. No meio do caldo havia um osso com carne e o único talher que tinha na mão era uma colher. Como iria separar a carne do osso só com uma colher? O homem mais velho, que olhava atentamente para o entusiasmo do G. enquanto comia, levantou-se para ajudá-lo. Eu, sentada à sua frente, nem tive tempo para reagir. Sem aviso, o senhor enfiou as mãos na sopa e desfiou a carne assim mesmo. Acho que deixei de respirar por uns momentos, mas o G. não pareceu importar-se. Sorriu, agradeceu e continuou a comer.



O resto da noite foi passada a comer, a conversar, a sorrir (não há linguagem mais universal que o sorriso), a ver os miúdos brincar. O G. tinha levado a máquina fotográfica e uma lanterna e eles divertiram-se a explorar. Fizeram poses engraçadas, macaquices e traquinices. Riam muito e lutaram a brincar. Os nossos no meio dos outros como se sempre tivessem lá estado. Até a M., que até ali não saía do meu colo, se rendeu àquele cenário. Enquanto eu conversava com o Ulukbek, saiu do meu colo e foi juntar-se às crianças. Pouco depois já andava ao colo de uma das meninas mais velhas. Naquele dia, sem mais nem menos, deixou cair as inseguranças e integrou-se. Brincou até adormecer.



Durante todo o tempo que estivemos no Quirguistão, tivemos muito cuidado com a água que bebemos, sempre engarrafada, e tentámos comer alimentos cozinhados ou, quando crus, sem casca. Se fosse hoje teríamos optado por levar um filtro para purificar a água. É uma boa forma de evitar o uso de plástico descartável e tornar as viagens mais sustentáveis. Nas cidades, comemos em restaurantes mas também experimentámos a comida de rua. Nas montanhas, comemos os que nos serviram, sem direito de escolha.


Quando viajamos para sítios onde a alimentação pode ser um problema, prevenimo-nos com latas de atum e feijão ou grão. Há-de haver sempre arroz, massa ou batatas para juntar, em caso de necessidade. Se os miúdos torcerem o nariz à comida local, pelo menos sabemos que não passam fome. Foi isso que nos ajudou com a M. nos dias em que estivemos na montanha.


Apesar de os padrões de higiene serem muito diferentes dos nossos, nenhum de nós ficou doente para além de uma ou outra diarreia ligeira nos adultos que se resolveu rapidamente.


[como se dorme numa yurt, sem porta, quando lá fora a temperatura é negativa? como se mantém um biberão quente durante a noite? e como se lida com a falta de casas de banho? conto-vos tudo nos próximos posts...]

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