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A montanha



A montanha tem a capacidade de despertar em nós emoções fortes. Este ambiente natural, e por vezes desafiador, impele-nos para a introspeção e leva-nos ao encontro do nosso "eu" mais escondido e mais puro.

Talvez por a nossa história ter começado na montanha, sempre nos pareceu natural incluir os miúdos nos trekkings que fazemos. Quando não sabiam andar, iam na "cadeira-mochila" às costas do pai ou da mãe. Mas assim que se tornaram andarilhos, passaram para o chão. Para estes pequenos trekkers, o momento em que foram suficientemente crescidos para ir no chão (ainda que por curtos períodos de tempo) foi sempre encarado como uma conquista.



O ambiente de montanha aproxima-nos como família. Naquelas horas, somos só nós e o trilho. Nós e as árvores, nós e os pássaros. Nós e o barulho da água a passar lá em baixo. Naquelas horas, a curiosidade ganha asas. Surgem perguntas atrás de perguntas. Desde as mais terrenas às mais metafísicas. Muitas vezes, perguntas que nos põem a pensar e a questionar verdades que até então eram absolutas. Inventam-se histórias. Fala-se de sentimentos e de expectativas. Fala-se de sonhos.

Naquelas horas, aprende-se o valor da entre-ajuda. Da superação. Distribuem-se abraços em palavras de incentivo ao mesmo tempo que se aprende a resolver problemas. Sente-se na pele a imponência da natureza e como é importante respeitá-la e preservá-la. Naquelas horas, não há mundo lá fora. Somos só nós. Com todo o tempo do mundo para nos ouvirmos e sentirmos. Voltamos para casa mais leves e mais equilibrados. E isso faz-nos muito bem.



Nos miúdos, o desejo de exploração é algo inato. Por isso, sempre que a situação o permite, deixamos que vão à frente, a liderar. São eles que procuram as marcas nos trilhos e são eles que nos avisam quando aparece alguma passagem um pouco mais exigente. Acreditamos que esta sensação de liberdade e de autonomia é um instrumento poderoso para o futuro deles.

Claro que também ficam cansados e, por vezes, dizem que nunca mais querem voltar à montanha. Mas de cada vez que ultrapassam um obstáculo, seja ele atravessar um riacho ou mesmo chegar ao fim do trekking, ficam em êxtase pela sensação de superação e já só perguntam pelo próximo.



Lembro-me de um episódio que se passou, há uns anos, com o G.

Estávamos no Gerês. Era fevereiro e ele tinha 6 anos. O objetivo era passar a fenda da Calcedónia e ele era capaz de quase tudo para o atingir. Estava tão entusiasmado!

Já nos tinha ouvido falar sobre a fenda noutras alturas e acho que tinha criado na sua cabeça um verdadeiro filme de aventura em redor daquela passagem. A imaginação do G. pode tomar proporções inimagináveis, acreditem.

Nesse dia, saímos mais tarde do que o previsto. A M. tinha pouco mais de um ano e as manhãs eram bastante imprevisíveis. Às vezes corria bem, mas o mais natural era surgir um imprevisto qualquer à hora da saída que complicava imediatamente os nossos planos. Coisas normais em crianças pequenas. Adiante!

Saímos mais tarde e, depois de entrarmos no trilho, parámos quinhentas vezes para a M. sair da cadeira. Fosse para comer, caminhar, mudar a fralda ou outra coisa qualquer. Bem, se não foram quinhentas, pareceram! Parámos tantas vezes que, a certa altura, começámos a olhar para o relógio com alguma preocupação. Estava a ficar tarde para chegar à fenda, passá-la e voltar para o carro antes de anoitecer. Em Fevereiro, os dias ainda são curtos e não queríamos nada que a noite nos apanhasse de surpresa no meio da serra. Discretamente, lá combinámos que tentaríamos apressar um pouco a coisa para tentar evitar a frustração que, sabíamos, ia apoderar-se do G. se não conseguíssemos atingir o nosso objetivo. Enquanto caminhávamos, olhávamos para o relógio na esperança de que parasse só um bocadinho. Só para nós. Mas o relógio não parou. Continuou fiel aos seus princípios e transformou os segundos em minutos. Os minutos em horas. Uma atrás da outra.

Até que chegou altura em que percebemos que teríamos que abortar a "missão". Infelizmente, estava na hora de voltar para trás. O G. ficou tristíssimo. "Como é que não íamos passar a fenda se foi para isso que viemos? Qual é o problema de ficar de noite? Ligamos o frontal e já vemos o caminho para o carro". Ele não via problemas. Só soluções. Explicámos as nossas razões e voltámos para trás. Era o mais seguro.

Para que o resto da caminhada continuasse divertida, apesar da desilusão, inventámos todos os desafios possíveis. Subir pedregulhos altos, saltar, descobrir mariolas, adivinhar quantos pássaros iríamos encontrar até fim do trilho.

Sabemos que nem sempre as coisas correm como planeado. E, com crianças, tudo se torna ainda mais imprevisível. Mas é importante aceitarmos essa imprevisibilidade. Só assim conseguimos ajudá-los a lidar com a desilusão de ter que mudar os planos iniciais.