Quando o ecrã não é opção, a criatividade toma conta da casa

Um ginásio deliciosamente perfeito


Sempre tivemos cuidado com a exposição (para nós excessiva) dos miúdos aos ecrãs. Mas a pandemia veio alterar alguns comportamentos cá em casa e, depois dos confinamentos, passaram a usar muito mais a televisão, o telemóvel ou o iPad para se entreterem.


Ainda assim, há um princípio que respeitamos desde sempre e que nem a pandemia conseguiu distorcer. Entre um ecrã e a rua, a preferência tem que estar sempre na rua. E quando isso não acontece, conversamos com eles e mostramos-lhes que estão a fazer as escolhas erradas. Até agora, correu sempre moderadamente bem.

Recentemente, comecei a ler o livro “A fábrica dos cretinos digitais” e isso reabriu a discussão sobre o tempo razoável para “dedicar” aos ecrãs. Fui partilhando com eles as estatísticas e considerações do autor e fomos discutindo opiniões sobre elas. Às vezes, eles perceberam e aceitaram, outras, consideraram exageradas e infundadas. Eu percebo, confesso, porque até para mim, que estou do lado “quanto menos entretenimento digital, melhor”, alguns dos números apresentados foram surpreendentes.


Mas se o livro cumpriu alguma função imediata foi a de voltamos a rever as regras de utilização dos écrans à semana e ao fim‑de‑semana. E, com isto, definimos em família horas-limite para cada situação. Nós propusemos, os miúdos contestaram e lá conseguimos encontrar-nos no meio, assumindo um regresso progressivo à nossa normalidade.


À custa disto, no fim‑de‑semana passado, a M. optou por resistir à televisão, não chegando sequer a usar todos os minutos a que tinha direito. E, como consequência, dedicou-se à escrita, leitura e construção.


Hoje, falo-vos sobre a construção que lhe ocupou grande parte do horário livre do fim‑de‑semana, tirando-lhe até as horas de brincadeira ao ar livre que tínhamos planeado.



Enquanto eu e o Pedro estávamos a conversar na cozinha, ela estava entretida na secretária da sala. De vez em quando, vinha pedir se podíamos ajudá-la a colocar uma ou outra fita-cola, ou a cortar um pau de espetada. Mas tudo sem nos revelar o seu projeto.

Quando terminámos a conversa e as tarefas domésticas que fizemos a seguir, descobrimos o mistério. A M. estava a construir um ginásio, com os vários aparelhos usados pela Ginástica Artística Feminina.


Fiquei, imediatamente, fixada naquele trabalho. E acabei por me juntar a ela, para ajudar. E ajudar é mesmo a palavra certa. Porque ela tinha tudo de tal maneira pensado e planeado que eu fui uma mera ajudante. Cortei fita-cola, ajudei a fixar, emprestei uma mão quando duas não chegavam para a construção complexa que ela tinha em mente.



Aos poucos, surgiram as paralelas. Ela idealizou, mediu, cortou e colou respeitando os ângulos certos. E, aqui, o Pai ajudou na proporção da altura da mais baixa em relação à mais alta.



Depois, veio a trave. Ainda eu estava a pensar em como poderia ser construída e já estava ela a alinhar os paus de espetada em cima de um pedaço de fita-cola de papel para construir a estrutura. Também sabia exatamente como queria os pés, ainda que não conseguisse fazer o “y” perfeito de que precisava.


A seguir, o cavalo com reuther. Usou cartão e novamente os palitos para o pé, pediu-me ajuda para fazer o efeito de mola do reuther e ainda fez um pequeno tapete em EVA para ajudar no salto.


Quando os três aparelhos estavam prontos, anunciou que iria fazer 4 ginastas em plasticina. Uma para cada um dos aparelhos e uma última para o solo - um pedaço de EVA branca, pintada de lado a azul, a simular o colchão.



Fizemos o esqueleto com palitos. E deixem-me dizer que, nesta tarefa específica, a exigência foi de nível máximo. Era preciso respeitar as posições dos braços, pernas, pés e mãos para simular os movimentos requeridos por cada um dos aparelhos. E ela chegou a pedir-me para desfazer o que tinha feito porque não estava de acordo com os seus standards de perfeição. Pudera, logo eu que não tenho jeitinho nenhum para manualidades.



Ao fim de dois dias de trabalho intensivo o ginásio estava pronto para cumprir o objetivo que ela tinhdefinido. Oferecer ao Departamento de Ginástica Artística do clube de que faz parte.


E no primeiro treino na semana lá foi ela, com o trabalho nas mãos, num misto de nervosismo e orgulho, mostrar às treinadoras. Escusado será dizer que o gesto foi muito apreciado e a forma como o receberam fê-la muito feliz.

Deu trabalho, é verdade, mas ficou perfeito! E foi, com toda a certeza, muito mais recompensador do que um fim‑de‑semana de desenhos animados ou jogos de telemóvel.