Reforçar vivências a partir das experiências



Tivemos a sorte de viver as primeiras noites nas Tien Shan com uma família cheia de crianças. Eram 7, todas de idades diferentes, todas curiosas e ativas como as crianças devem ser. À exceção do bebé, ainda de colo, todas as crianças tinham a responsabilidade de assegurar tarefas em prol da harmonia familiar. Alguns iam buscar água, montados em burros. Outros reuniam as ovelhas e os cavalos. Havia ainda quem tivesse que reunir o estrume dos animais para alimentar o fogão ou mexer o caldeirão do leite de ovelha para garantir que este fermentava da maneira correta.

Essa distribuição das tarefas e a forma como cada criança lidava com as suas responsabilidades sem contestar foi uma das coisas que mais marcou o G.. Rapidamente, ao fim de umas horas a viver naquela família, ele percebeu que ser criança nas montanhas do Quirguistão era diferente de ser criança no Porto ou em Lisboa.

A segunda coisa que o impressionou foi a quantidade de brinquedos que estas crianças tinham à disposição. Naquela família com 7 crianças havia um carrinho de empurrar, uma bola, cordas de saltar e uma fisga (feita por eles). Mais nada! E, no entanto, todos eles eram felizes e brincavam uns com os outros de forma harmoniosa.



Com apenas 8 anos e poucas horas de convivência com uma realidade diferente da sua, o G. percebeu que tinha excesso de brinquedos e que podia participar mais nas tarefas de casa. Tudo isto originou várias conversas de família ao longo da viagem. Falámos muito sobre o ter e o ser, sobre as necessidades e as vontades, sobre os direitos e as obrigações. Não vou mentir, dizendo que a sua atitude mudou para sempre. Mas o que é certo é que lhe deu consciência e o deixou a pensar. E se, ainda hoje, há muitas alturas em que quer mais do que precisa, também é certo que, no aniversário, é ele quem pede para não ter tantos presentes porque sente que já tem brinquedos a mais. Alguma coisa há-de ter ficado desta experiência.


| os dois únicos brinquedos que os miúdos tinham levado para as montanhas eram uma bola e umas cordas de saltar que tinham oferecido ao G. num aniversário. quando nos despedimos desta família, o G. quis oferecer as cordas às crianças como agradecimento pela forma como nos receberam.|


Viver sem casas de banho



Uma das primeiras coisas que procurei quando saímos do carro nas Tien Shan foi uma rocha grande ou qualquer outra coisa que nos desse a privacidade necessária quando nos apetecesse ir à casa de banho (vamos dizer assim…). Não havia nada! Nem uma rocha grande nem uma pequenina. Nem um arbusto, nem umas singelas tábuas de madeira ao alto a improvisar uma casa de banho como já tínhamos visto noutros sítios. A única coisa que vi foi uma planície a perder de vista. Plana, portanto. Sem altos, nem baixos. Plana. Acho que foi nessa altura que percebi que ir para aquele sítio com duas camadas de calças de montanha vestidas não iria ser a coisa mais prática do mundo quando a natureza chamasse por mim. Sorte a dos homens que, nestes casos têm, em parte, a vida facilitada. Meti na cabeça que esperaria pela noite para me refugiar na privacidade que o céu escuro podia proporcionar-me e resignei-me.

Acho que essa foi a parte mais difícil nos dias que passamos com as famílias nómadas nas montanhas. Passámos vários dias nestas condições e, de uma forma ou de outra, lá fomos conseguindo gerir as dificuldades. Mas não deixou de ser um desafio para todos.



Na montanha, a quase 3000 m de altitude, as noites são muito frias. Durante o dia conseguimos aguentar bem a temperatura porque não parávamos muito, mas quando o sol desaparecia e a chuva chegava, tornava-se um pouco mais difícil de gerir.

Quando, na primeira noite, chegou a hora de dormir, entrámos na yurt e estendemos os sacos-cama em cima dos cobertores que nos serviriam de colchão para as próximas noites. Todos em filinha, encostadinhos uns aos outros. O Francisco, a M., eu, o G, o Pedro e, um pouco mais afastados, o Ulukbek (o nosso guia) e o motorista. Dentro da yurt não estava quentinho, mas também não fazia o frio que se sentia lá fora. As yurts são revestidas a um feltro grosso que impede o frio de entrar e têm, normalmente, um fogão que serve tanto para cozinhar como para aquecer. Accionei o botão do otimismo e descansei.

Com 2 anos, a M. ainda bebia leite pelo biberão durante a noite por isso eu já sabia que seria um desafio mantê-lo morno para quando ela quisesse. Quando viajamos com miúdos temos, muitas vezes, que improvisar e nós já estamos habituados a estas dinâmicas. No meio da montanha, sem água nem eletricidade, optei por manter o biberão cheio dentro do saco-cama, junto a mim, para que, pelo menos, não ficasse gelado. Ela lá acordou duas ou três vezes, como habitual, e bebeu o leite sem refilar pela temperatura. Correu bem! Repliquei o modelo nas noites seguintes, com sucesso.



Mais uma vez ficou provado que, na maioria das vezes, somos nós, pais, a complicar. Os miúdos adaptam-se com muita facilidade às situações mais estranhas e inesperadas. E estão sempre muito mais preparados para o improviso do que nós, adultos. Ao longo dos anos, fui percebendo que a nossa atitude perante as coisas, determina a forma como as crianças reagem a elas. Isto aplica-se às comidas e dormidas, aos transportes e ao cansaço que chega sem avisar.

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